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6 de Dezembro de 2021

Gastar dinheiro com Advogado? Que dó...

A fuga do advogado que cobra pela consulta ou pelo preparo processual.

Giuliano Satriano, Advogado
Publicado por Giuliano Satriano
há 6 anos

Gastar dinheiro com Advogado Que d

Na carreira de advogado militante com escritório próprio, é possível vivenciar diversas situações que podemos chamar de “fenômenos”, tanto judiciais quanto extrajudiciais, especialmente no começo de carreira quando o advogado que não tem patrão e nem salário “topa qualquer coisa” para trabalhar.

Algumas situações das mais absurdas possíveis você só vê neste emocionante começo de carreira, outras com o passar dos anos caem na normalidade, porém existe um fenômeno que é recorrente, seja você um causídico com carreira jovem ou madura.

O estranho fenômeno da “dó de gastar dinheiro com advogado”, que surge logo no primeiro contato com o cliente, que usa dos mais diversos artifícios para extrair qualquer informação de forma franca.

É incrivelmente comum, como se houvesse um manual de instruções pré-estabelecido e distribuído a todos que não possuem capacidade postulatória com frases que parecem prontas e combinadas entre os clientes ou "quase clientes", dada a semelhança das abordagens que recebemos, alguns exemplos abaixo:

“Dr. Só preciso de uma informação... O Sr. Pode dar uma olhadinha pra mim?”

“Nossa tudo isso para mandar um e-mail?”

"Não sabia que a consulta era cobrada... Vou pensar e entro em contato"

"Mas parece algo tão simples, está muito caro"

Mas dentre todas as frases que já ouvi, a que mais me marcou foi essa, que foi dita logo após eu informar o preço de uma consulta:

“Acho muito dinheiro para uma conversa de 20 minutos”

Quando o cliente em potencial se esquece que esses 20 minutos de conversa podem ser determinantes para ter seu legítimo direito reconhecido ou até mesmo a sua vida resolvida – ainda que isso possa levar alguns anos.

Quando é passada a parte da “consulta grátis”, chegamos a parte do famoso “ad exitum”, este também outro fenômeno muito comum, quando o cliente sugere que o advogado nada cobre para executar todos os trâmites processuais desde a inicial até a longínqua sentença, para ao final receber uma porcentagem do “prêmio” fruto de danos morais ou materiais.

Afinal, é plenamente possível gastar dinheiro com qualquer bem ou serviço de retorno imediato, mas gastar com um advogado que está ousando cobrar para prestar uma consultoria simples ou então escrever um monte de leis em um pedaço de papel, é impraticável.

Mas o serviço do advogado – ainda que extrajudicial – não tem valor mesmo?

Bem como o médico que receita um medicamento que pode cessar uma dor nas costas, o advogado pode em uma consulta indicar um caminho ou uma solução que pode tirar das costas do cliente um peso que o estava agredindo tanto quando uma dor física.

O advogado também tem suas despesas, das mais diversas, aluguel, seguro, vestimenta, cursos de atualização – para melhor atender o cliente – deslocamento, dentre outras despesas extraordinárias que podem surgir em qualquer tempo, ou seja, o advogado que trabalha sem cobrar consulta ou somente “ad exitum” de certo deve ter outro meio de conseguir recursos para suas despesas, pois não se pode contar com verbas processuais incertas.

O trabalho do advogado começa desde a consulta, mesmo que o cliente tenha sua resposta em uma conversa de 20 minutos, ele precisa se conscientizar que para dar essa resposta em 20 minutos houve pelo menos 5 anos de faculdade, meses de estudos para encarar a o exame de ordem, investimentos em pós-graduações, dedicação a carreira, investimentos em montar seu escritório, arcar com todos os impostos – sim, advogado também paga imposto – em síntese, o valor cobrado não é pelos poucos minutos que o cliente “desperdiça” na consulta e sim por tudo o que o advogado passou para estar na posição de poder resolver o problema ou levar uma luz no fim do túnel para o seu cliente.

Cobrar pela consulta, pelo preparo processual, para emitir notificações extrajudiciais, pelas diligências e qualquer ato advocatício é importante, tanto ou até mais importante do que a porcentagem recebida ao fina da causa, pois não existe verba processual que seja garantida e acontecem as mais inesperadas reviravoltas nos julgamentos.

Então, quando você paga a consulta a um advogado, você não está jogando dinheiro fora, como tudo no mercado de trabalho, você está pagando para receber um serviço, e este sendo um dos mais importantes serviços prestados, pois lida com seus direitos, muitas vezes os direitos mais sagrados, como direito a vida, a liberdade, dignidade da pessoa humana, dentre outros.

Ao advogado, fica o conselho, valorize o tempo que você empregou para chegar onde chegou, valorize o tempo que você emprega no seu trabalho, deixe o preço dos seus serviços fixado de uma maneira que você se sinta confortável para trabalhar, pois vale mais 1 cliente que entende o valor do seu serviço do que 10 clientes que buscam somente uma facilidade e tem “dó” de investir seu dinheiro na busca pelos seus próprios direitos.

35 Comentários

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Uma dúvida que tenho desde formado, será que é algo cultural, específico do nosso Brasil, ou se encontram exemplos em outros Países?

(Ótimo Texto) continuar lendo

Concordo absolutamente com o colega, comunga com as crenças que possuo desde a escolha da profissão, e anseio sinceramente para que este seja um sentimento comum a toda à classe.
Todavia, na prática, a teoria é outra, como sempre!
Ao atuar nas áreas previdenciária e trabalhista laboral sente-se a dificuldade, para não dizer total impossibilidade, de cobrar pela consulta jurídica ou qualquer valor a título de "entrada" além do percentual sobre o êxito.
Primeiro porque se está postulando direito a verba essencialmente alimentar, sendo que, tivesse o cliente condições de arcar com a consulta, não estaria pleiteando benefício previdenciário ou verbas impagas no contrato de trabalho.
Segundo porque, dificuldade comum aos advogados de qualquer seara, fica impossível fazer frente à concorrência desleal praticada pelos insignes desventurados que "advogam em troca de galinha assada".
Ficam as esperanças e os desejos por um futuro mais prestigioso para a advocacia. continuar lendo

Seu comentário foi mais educativo do que o texto. Eu acho inacreditável a incapacidade dos colegas de perceber que esse modelo "ético" de "advocacia de novela das oito" que exige se cobre algo em torno de trezentos reais de consulta de um desempregado é a mais canalha forma de manipular o advogado do mundo real, iniciante, que acaba servindo a qualquer propósito, pelas mais variadas razões: seja o papai que deve favor pra um mundo de gente e que aproveita e "indica" o filho que se formou advogado para trabalhar pra um mundo de gente, por virtualmente dinheiro nenhum, ou seja a voz da necessidade falando mais alto e levando as pessoas a negociar valores pessoais que, no futuro, irão mantê-las na mesma lógica auto perpetuadora da pobreza. Toda "ética" pode e deve ser questionada. continuar lendo

Olá Dra.

Mesmo na área previdenciária e trabalhista é possível cobrar.

Cobramos ao final da demanda a título de consulta até para instituir a cultura do "dá uma olhadinha" tem um custo.

Abraços continuar lendo

Fui a um advogado em busca de indenização por danos morais. O moço me conseguiu de indenização "apenas" 10% do que EU queria. No entanto, por especialista que é, ampliou meu ganho final esperado em 400% combatendo em outra frente que eu não percebi. continuar lendo

Texto maravilhoso, mas penso que a OAB deveria fiscalizar mais, tanto no que diz respeito a consulta , quanto aos honorários, pois tem muito advogado que está trabalhando, sem respeitar nem mesmo a tabela de honorários da OAB, fazendo com isso que a classe fique desmoralizada. continuar lendo

Concordo! Falta uma fiscalização efetiva que combata a falta de ética. Bem como nossas leis em âmbito geral, o código de ética é muito bonito no papel, mas pouco aproveitado na prática.

Obrigado pelo seu comentário! continuar lendo